Commodities como soja, milho, algodão e carne bovina podem ganhar espaço no mercado asiático
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Imagem reprodução da web |
As tensões comerciais entre Estados Unidos e China ganharam um novo capítulo com a decisão do governo chinês de retaliar tarifas impostas pela gestão de Donald Trump. A medida tornou mais caros os produtos agrícolas americanos no país asiático, abrindo espaço para que o Brasil amplie suas exportações de grãos e proteínas.
Desde o dia 10 de março, a China aplicou um aumento de 15% nas tarifas de importação sobre carne de frango, trigo, milho e algodão dos Estados Unidos. Além disso, soja, sorgo e carne bovina foram sobretaxados em 10%, reduzindo a competitividade dos produtos americanos no mercado chinês. Essa decisão pode favorecer produtores brasileiros, que já têm a China como um dos principais parceiros comerciais.
Expectativa de valorização das commodities brasileiras
A tributarista Priscila Ziada Camargo Fernandes, especialista em recuperação de ativos no setor agro, aponta que a medida pode impulsionar os preços das commodities brasileiras. "A expectativa é de um impacto positivo no valor de mercado, pois a menor importação dos Estados Unidos tende a fortalecer os preços do Brasil", explica a especialista.
No setor de proteína animal, a gerente de exportação da Ramax Group, Mariana Inocente P. Guimarães, destaca que a carne bovina brasileira não compete diretamente com a americana na China, já que possuem nichos distintos. No entanto, o aumento da taxação pode estimular uma maior demanda por carne suína e de frango brasileiras, beneficiando a indústria nacional.
"A carne bovina brasileira é utilizada pela indústria chinesa para produção de alimentos processados, enquanto a carne americana, vinda de gado confinado, vai direto para restaurantes e supermercados. No entanto, a redução na oferta dos EUA pode gerar um efeito indireto, impulsionando a procura por outras proteínas, como frango e porco", explica Guimarães.
Desafios para o Brasil ampliar a exportação de carne bovina
Apesar das oportunidades, a pecuária brasileira enfrenta desafios para ampliar sua participação no mercado chinês. Um dos principais entraves é a limitação do rebanho bovino dentro dos critérios exigidos pela China, que determina que apenas bovinos com até 30 meses de idade sejam exportados.
Outro fator que preocupa o setor é a redução das áreas de pastagem, substituídas por culturas mais rentáveis, como soja e milho. "Hoje, há poucas fazendas voltadas para a criação de gado. Muitos produtores preferem investir em outras culturas que oferecem maior retorno financeiro", comenta Guimarães.
Além disso, a margem de lucro da pecuária tem diminuído, com o preço do boi gordo pressionando os custos da indústria e dos produtores. Atualmente, apenas 30% da produção de carne bovina no Brasil é destinada à exportação, com a maior parte sendo consumida no mercado interno.
Amendoim pode ganhar mercado em Canadá e México
Além da China, outros países afetados pelas tarifas de Trump, como Canadá e México, podem buscar novos fornecedores para substituir os produtos americanos. O setor de amendoim brasileiro, que já tem exportações consolidadas para diversos países, vê uma oportunidade para expandir sua presença nesses mercados.
"Com as barreiras comerciais, a demanda por amendoim pode ser direcionada para o Brasil e a Argentina", avalia um representante do setor. Mesmo com a seca impactando algumas regiões produtoras, a expectativa é de uma supersafra este ano, já que a área plantada aumentou 40%.
Impacto global e desafios futuros
Embora as tensões comerciais entre Estados Unidos e China possam abrir novas oportunidades para o agronegócio brasileiro, especialistas alertam que a real dimensão desse impacto ainda precisa ser avaliada ao longo do ano. A reação do mercado internacional, a resposta dos Estados Unidos a essas medidas e a capacidade do Brasil de atender à demanda crescente serão fatores determinantes para consolidar essa vantagem competitiva.
Além disso, os juros elevados e o custo da produção são desafios que podem limitar o crescimento das exportações. Ainda assim, o Brasil segue como um dos principais players globais do agronegócio e pode aproveitar esse momento para fortalecer sua presença nos mercados internacionais
Fonte: UOL