Escalada no preço do cacau desafia indústria do chocolate e encarece Páscoa

Quebra de safra na África e volatilidade do mercado impactam produção e consumo

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A disparada nos preços do cacau, que acumulou uma alta de 180% nos últimos dois anos, já afeta diretamente o mercado de chocolates e os preços dos produtos de Páscoa. O aumento global do custo da matéria-prima foi impulsionado por ondas de calor e seca severas nos maiores produtores mundiais, como Costa do Marfim e Gana, que registraram quebras significativas de safra.

A instabilidade no setor deve persistir neste ano, especialmente na Costa do Marfim, maior produtor mundial, que ainda enfrenta os efeitos climáticos adversos. Em Gana, por outro lado, o governo aponta uma tendência de recuperação da colheita, o que pode contribuir para uma futura estabilização da oferta.

Brasil aposta na recuperação da safra e na inovação

Sexto maior produtor mundial de cacau, o Brasil projeta um aumento na safra após sucessivas quedas. Com 90% da produção concentrada no Pará e na Bahia, o país colhe anualmente cerca de 300 mil toneladas da fruta. Além disso, novos investimentos buscam expandir a produção para regiões não tradicionais, como o cerrado baiano e o norte de Minas Gerais.

"Ainda há muita volatilidade no mercado, tanto na oferta quanto na demanda, e isso impacta toda a cadeia produtiva, do agricultor ao consumidor final", analisa Letícia Barony, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Outro fator que pode ajudar a equilibrar o mercado é o avanço no processamento do cacau no Brasil, permitindo que o país agregue mais valor ao produto, tanto para exportação quanto para o mercado interno.

Ovos de Páscoa mais caros e menor produção

A produção de ovos de Páscoa deve cair cerca de 20% em 2024 em comparação ao ano passado, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates (Abicab). A retração ocorre diante da alta nos custos, que já se reflete nas prateleiras: os ovos de chocolate ficaram 14% mais caros, enquanto as colombas tiveram um aumento médio de 5%.

Para compensar a elevação dos preços e manter as vendas, as indústrias apostam em estratégias como produtos menores e mais acessíveis, ampliando a diversidade do portfólio. Mesmo diante das dificuldades, o setor prevê a contratação de 9,6 mil trabalhadores temporários, um crescimento de 26% em relação a 2024.

Pequenos produtores enfrentam desafios e se reinventam

Quem também sente os efeitos da alta no cacau são os pequenos produtores e confeiteiros. A chef Dayane Cristin, de Osasco (SP), que vende trufas no transporte público, conta que precisou aumentar os preços e redobrar a pesquisa de fornecedores para manter a rentabilidade do seu negócio.

“O chocolate está cada vez mais caro, e alguns produtos, como o chocolate branco, estão até em falta. Eu tive que reajustar o preço das minhas trufas de R$ 3 para R$ 4”, relata a empreendedora.

Mesmo assim, ela está otimista com as vendas da Páscoa e projeta um faturamento entre R$ 15 mil e R$ 20 mil na data.

Tecnologia e cooperação internacional podem garantir o futuro do setor

O setor aposta em inovação para reduzir os impactos da crise. Melhorias tecnológicas no cultivo, fermentação e armazenagem do cacau têm ajudado a aumentar a produtividade e garantir a qualidade do produto. Além disso, o Brasil vem fortalecendo laços com os principais produtores africanos, promovendo acordos de cooperação para otimizar a produção e aumentar a participação dos países na renda global do setor.

Diante da volatilidade do mercado e dos altos custos, consumidores e produtores precisarão se adaptar às novas dinâmicas da indústria do chocolate nos próximos anos.

Fonte: Agência Brasil

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